#39: Rim
Passei um aniversário caótico num pronto socorro na Grécia.
Eu detesto guias de viagem. O que não deixa de ser bastante irônico se pensarmos no quanto eu gosto de viajar.
Há vários motivos que me fazem detestar guias de viagem, mas o principal deles provavelmente é a sensação de que eu estou sendo “comandada”. São aqueles guias que, em formato de texto, áudio ou vídeo, dizem exatamente para onde ir, em que hotel ficar, em qual restaurante ir e o que comer. Guias de viagem no imperativo.
Aqueles que soltam frases como “você não pode perder isso” ou “conheça esse lugar escondido no meio da cidade”, o que imediatamente torna o estabelecimento desproporcionalmente hypado. Um lugar em que você provavelmente não vai conseguir entrar - a não ser que fique horas numa fila, o que eu definitivamente me recuso a fazer - ou, mesmo entrando, você se questiona se o lugar é de fato bom.
Antes de visitar a Cidade do México, por exemplo, eu vi diversos vídeozinhos no instagram dizendo que eu tinha que ir na Panadería Rosetta, uma padaria bem famosa no bairro de Roma Norte. Eu estava hospedada lá por perto, então pensei “por que não?”.
Foi só passar na frente e ver dúzias e dúzias de estrangeiros esperando para entrar que eu imediatamente desisti, um tanto abismada. Com milhares de padarias incríveis na Cidade do México, o que faria essas pessoas esperarem horas por um café com pan dulce?
Eventualmente, eu descobri uma outra loja da Panadería Rosetta não muito longe dali, essa um pouco menor, e consegui provar os ovos mexidos e um pão de figo. Tudo gostoso e ótimo atendimento. Mas já tinha provado padarias melhores naquela mesma viagem.
Raramente eu fico satisfeita quando sigo sugestões de guias de viagem e evito ao máximo consumir esse tipo de conteúdo. O que não significa que eu não me preparo para as viagens.
Eu amo estudar o destino antes de ir. Não digo estudar pontos históricos para planejar um roteiro; afinal, detesto roteiros.
Quero dizer estudar os pequenos detalhes e as regras não ditas de uma cultura que estou prestes a conhecer de perto. Informações que me ajudaram a entender, por exemplo, o motivo das gorjetas no Japão não serem aceitas, ou como devemos nos comportar em cerimônias nas saunas alemãs.
Para esse tipo de conteúdo, eu sou especialmente apaixonada por uma série de livros chamada The Passenger. Cada edição coleciona artigos jornalísticos sobre um determinado país que contam muito sobre a história e a cultura daquele lugar.
Foi lendo esses artigos que eu descobri sobre o pulque, uma bebida milenar produzida a partir do agave e que é uma parte significativa na cultura mexicana, mas que simplesmente não teve a mesma atenção comercial que a tequila. Provavelmente eu não teria provado o pulque na minha viagem ao México se não tivesse lido sobre ele antes.
Foi também nesses livros que eu aprendi mais sobre a burocracia inigualável da Grécia. Uma máquina movida a papéis e formulários que estão constantemente errados. Um país engessado que gera pessoas extremamente desconfiadas e, paradoxalmente, das mais acolhedoras que eu já encontrei nas minhas viagens.
Sou muito grata por ter lido esse livro antes da minha última visita à Grécia. Sinto que ele me preparou para navegar por um dia particularmente caótico...
Era por volta da 1h30 da madrugada do dia primeiro de junho. Meu aniversário.
Tínhamos chegado em Atenas menos de 24 horas antes para uma viagem em família. O plano era passar meu aniversário na praia em uma ilha próxima à capital grega.
Mas por volta da 1h30 da madrugada do dia primeiro de junho, meu pai me acorda dizendo que está com dor no rim.
Ele não precisa explicar muita coisa. O rim dele tem seu roteiro próprio. Ao menos uma crise renal por ano já ensinou toda a família a entrar em estado de alerta com a mera frase “dor no rim”. O que viria a seguir deveria ser de praxe. Exceto que ele nunca tinha tido pedra no rim na Grécia.
De repente fui colocada numa posição inédita; a da responsável. Você que fala inglês… Você que mora na Europa… Como se essas fossem credenciais qualificadas. Como se algum dia eu já tivesse precisado de um hospital na Grécia.
Acho que realmente tem uma primeira vez pra tudo.
Salto da cama e ligo para o seguro viagem do meu pai. Gasto uns 15 minutos com a atendente, mas nós não nos entendemos. Ela não acha os dados dele e eu, totalmente ensonada e levemente surda no telefone, não entendo o que ela quer. Desisto.
Busco no google o hospital mais próximo do airbnb. Vejo a informação de que ele está aberto e eu confio. Boto uma roupa correndo e chamo o uber. Vamos só meu pai e eu, enquanto minha mãe e minha tia ficam no apartamento a pedido meu. Mesmo no turbilhão do momento, tenho plena noção que perderia a cabeça se precisasse ficar de olho em todos ao mesmo tempo.
Chegamos em menos de 10 minutos e damos com a cara no portão. Era madrugada de segunda-feira, um feriado, e o pronto socorro estava fechado. Tinha esquecido de dois fatos importantes quando se visita um país europeu:
Não se pode confiar nas informações do Google.
Hospitais fecham em feriados.
Erro de viajante iniciante.
Tem um segurança na guarita e eu pergunto pelo hospital aberto mais próximo dali, e ele prontamente bota o endereço no meu celular. Logo em frente tem um táxi parado, que sorte! Mostro o endereço ao taxista mas ele me rejeita de pronto, repetindo apenas um “No English, no English”. Lá se foi a sorte…
Do outro lado da rua tem uns botequins abertos. Já são 2 horas da madrugada e um casal parece esperar pelo seu gyros depois de um dia de festa. Ele veste um terno chique e ela um vestido longo elegantérrimo. Impecáveis, mesmo no botequim para a larica da madrugada.
As coisas que a gente nota nos momentos de tensão.
Pergunto se eles falam inglês e eles dizem que sim meio que de má vontade, provavelmente desconfiados de uma turista no meio da noite. Também ficaria no lugar deles.
Ignoro o desconforto e solto a frase sem nem respirar: “Eu preciso levar meu pai no hospital mas o taxista não fala inglês. Será que vocês podem falar com ele?”.
Em um milésimo de segundo eles levantam e atravessam a rua em direção ao carro. A cena a seguir é cômica mesmo no stress do momento: um casal com roupas formais batendo boca com o taxista que claramente não quer fazer a corrida. A moça checando meu celular para confirmar o endereço. O parceiro dela checando meu pai e eu para vermos se estávamos bem. Meu pai contorcido de dor sobre a grade do hospital fechado.
Por fim, somos enfiados no carro com desejos de melhoras e muita simpatia. Espero que eles tenham conseguido comer seu gyros em paz.
O segundo hospital está aberto. Gasto alguns instantes para me localizar; é uma recepção pequena e simples em um prédio que me lembra uma repartição pública negligenciada de Bertioga. Vejo um breve terror no rosto do meu pai, que há anos se trata em um bom hospital particular de São Paulo.
Sigo em frente. A recepcionista está sentada numa daquelas guaritas de casa de câmbio, atrás de um vidro com aquele sistema de microfone que é igual a nada. Como já era de se esperar, o microfone não funciona e eu preciso contar com minhas poucas capacidades de leitura labial.
Apesar da dificuldade técnica, ela nos recebe com um sorriso simpático e nos atende em inglês de imediato, como se turistas no pronto socorro fossem um evento diário ali. E era. Minutos depois descobriria que nós éramos o quarto grupo de estrangeiros na sala de espera.
Ela tira uma cópia do passaporte do meu pai e me dá um formulário de página única em inglês para preencher.
Nacionalidade. Data de nascimento. Endereço na Grécia. Nome do pai e da mãe do paciente. Telefone para contato.
Preencho tudo exceto os nomes dos meus avós mortos. Achei que a árvore genealógica não vinha ao caso naquele momento. Ela insiste. Eu ainda pergunto novamente, incrédula: “Os pais dele mesmo?”, apontando para meu pai atrás de mim, com sua cabeça tomada de cabelos brancos e claramente beirando os 70. Ele dá risada da situação. Pelo menos mantém o bom humor durante a crise.
A recepcionista confirma e eu cedo, derrotada.
Ela entrega o papelzinho com a nossa senha e manda aguardarmos na recepção, onde há uma tela com números e palavras que, assumo eu, indicam para onde cada paciente deve ir. Não que servisse para muita coisa no meu caso, já que está em grego. A cada instante um enfermeiro aparece e grita alguma informação que não consigo identificar. Uma pequena multidão se aglomera na frente da sala da triagem.
Fico andando de um lado para o outro tentando entender o sistema do hospital. Quando tenho uma chance, pergunto a um enfermeiro o que eu tenho que fazer. Ele olha minha senha e só faz que não com a cabeça.
Um senhor mais velho está sentado ao nosso lado segurando sua bengala. Ele vê que estou perdida e pede pra ver minha senha, mostrando a dele em troca. Ele está dois números na nossa frente.
Simpático (simpatia é uma palavra que se repete infinitamente nessa história), ele nos assegura da ordem das senhas e diz para ficarmos perto da sala da triagem depois que ele entrar. Agradecemos.
“Desculpa meu inglês” diz ele em um inglês perfeito.
“Desculpa meu grego” diz meu pai. Damos risada.
A triagem acontece em segundos e somos enviados novamente para a recepção para aguardar a chamada da urologia. Fico correndo entre meu pai, que está contorcido de dor em um canto, e a porta da área de atendimento médico. A tela com as senhas parou de atualizar, e toda vez que o enfermeiro aparece para chamar alguém, enfio meu papelzinho com a senha na cara dele como quem diz “desculpa, eu não entendo o que você está falando”.
Surpreendentemente, minha técnica funciona. Eventualmente ele olha para mim e diz “é você mesma”.
Chamo meu pai. O enfermeiro diz que só o paciente pode entrar, e eu digo que o paciente não fala inglês. Meio a contragosto, ganho permissão de acesso.
Somos encaminhados para a sala de medicamentos. Ou o salão, nesse caso. Um ambiente amplo, com macas preenchendo cada espaço possível, além de várias outras que foram colocadas de qualquer jeito no meio da caminho quando não havia mais espaço. Todas estão ocupadas com pacientes murmurando de dor.
Meu pai e eu ficamos em pé na porta enquanto o médico (simpaticíssimo) pergunta o que está acontecendo.
Conto tudo com pressa, como se falar rápido fosse fazer com que a gente saísse de lá mais cedo. Histórico de crise renal todos os anos já está ciente de uma pedra grande no rim direito que não estava se mexendo até aquele dia última cirurgia foi exatamente um ano atrás tem problema de colesterol e pressão alta alérgico a amoxicilina.
Me surpreendo com minha própria eficiência.
Meu pai é colocado na única maca livre num canto e em instantes é medicado. Eu fico ao pé da cama, entre ele e uma caixa de papelão com uma mistura de lixo seco e lixo biológico. Vejo as enfermeiras jogarem algodões com sangue junto com caixas vazias de luva de borracha. Desvio o olhar de uma cadeira de rodas com uma mancha suspeita. Sinto que estou num episódio de final de temporada de The Pitt.
A única palavra que vem à mente é caos. Tento me fazer minúscula e sair do caminho de médicos, enfermeiros e mais pacientes do que definitivamente deveriam caber naquele espaço. Meu pai dorme e eu fico imóvel, com medo de que se eu sair dali, ele vai sumir no hospital e eu não vou mais encontrá-lo.
Ao meu lado, um senhor só de cueca recebe uma injeção que me lembra vagamente Benzetacil. Pela forma que ele urra de dor, deveria ser mesmo.
Uma senhora em aparente surto grita constantemente a algumas camas de distância. Vejo a equipe médica se esforçar para manter a paciência enquanto tentam conversar entre si em meio aos berros.
Começo a sentir a exaustão e seguro a vontade de chorar.
Um tempo depois meu pai acorda e o médico fala para eu levá-lo no ultrassom. Ele me dá um papel e suas únicas orientações são “sala 11 no subsolo”.
Caminhamos por um corredor longuíssimo até chegar ao destino. Há três enfermeiros, todos idosos e vestidos de branco, que nos olham como se fôssemos alienígenas. Engraçado, pois eles mesmos parecem três almas penadas.
Mais tarde brinco com meu pai que se ele estivesse sozinho, era capaz que ali seria onde roubariam o resto dos seus órgãos saudáveis.
O técnico do ultrassom vem nos chamar para o exame e em poucos minutos já somos liberados com uma tira de fotos do rim do meu pai e o diagnóstico em grego. Sei que ele levou de volta ao Brasil para emoldurar. Um souvenir mais do que exclusivo da viagem à Grécia.
Voltamos ao médico simpático na sala de atendimento que nos dá a melhor notícia que poderíamos ter: a pedra não está bloqueando o canal urinário e meu pai pode ser liberado com uma receita de antibiótico só por precaução. De resto, diz o médico, é esperar pelo melhor, o que basicamente pode ser traduzido como “rezar para que essa pedra não se mexa mais até o final da viagem”.
Finalmente, estamos quase liberados para ir embora! Exceto que o médico foi chamado para uma urgência e demorou uma hora e meia até ele voltar para nos dar a tal receita do antibiótico. Uma hora e meia que pareceu ter demorado muito mais do que todo o tempo em que ficamos em atendimento.
Às 5 da madrugada, o médico reaparece, exausto, e nos entrega o tão necessário papel. Saímos.
Sem assinar um documento. Sem pagar um centavo. Sem precisar falar com absolutamente ninguém. Simplesmente saímos.
Está amanhecendo e por um segundo no uber de volta ao airbnb eu penso em largar meu pai e ir ver o nascer do sol na praia. Mas não dou corda ao pensamento; o que mais quero de verdade é deitar numa cama limpa e dormir.
Descanso por algumas horas antes de ir em busca do antibiótico, dessa vez sozinha. Depois do caos da madrugada, aprecio alguns momentos de paz e silêncio.
Exceto que a primeira farmácia que eu tento está fechada. Assim como as próximas dez.
Me dou conta que ainda era feriado na Grécia - afinal, o dia tinha apenas começado - e deduzo que eles devem ter o mesmo sistema de farmácia de plantão que temos na Alemanha, quando apenas um estabelecimento por região fica aberto aos domingos.
Suando sob o sol de 30 graus, busco pela loja de plantão na internet. Preciso caminhar mais meia hora até lá. Compro um freddo espresso e faço uma mini rota turística. Ainda dá tempo de tirar uma foto ao passar coincidentemente pela troca da guarda.
Felizmente, encontro a tal farmácia aberta.
Infelizmente, o farmacêutico não aceita a receita do hospital. Diz que ela foi escrita no formulário errado. Até insisto um pouco, mas ele é totalmente inflexível e eu sou péssima na arte da negociação.
Desolada, saio de lá e finalmente choro.
Passamos o dia discutindo se deveríamos voltar mais cedo para Berlim, mas no final decidimos “esperar para ver”. Meu jantar de aniversário é uma sopa vietnamita que eu peço no delivery.
No dia seguinte, pós feriado e com lojas abertas, tento uma outra farmácia. A farmacêutica aceita a receita sem nenhum comentário.
Não fico totalmente surpresa. Lembro do livro The Passenger sobre a Grécia e de alguma maneira absurda aquilo tudo fez algum sentido. Em países com burocracias sem pé nem cabeça, tudo o que você precisa é sorte.
Meu pai fica de molho por dois dias, mas por fim conseguimos aproveitar uma praia. Não foi a ilha que eu tinha planejado, porém uma excelente praia de qualquer jeito.
Também não foi a viagem que minha família estava esperando, o que reforça um pouco minha aversão a fazer viagens muito planejadas. A gente nunca sabe a surpresa que vai nos receber.
De qualquer jeito, e passado o susto, volto à Alemanha ainda mais apaixonada pela Grécia. Encantada pelo clima, pelas paisagens, pela comida, e agora por ter vivido na pele o que antes só tinha lido em livros: as pessoas.
Γεια σου!






adorei o texto :)
Agooooora eu entendi o chorar de rir do Ricardo. Por mais textos cômicos Lu!!! Ri muito, com respeito…. Amo os detalhes, a descrição, a cena montadinha na minha cabeça… Beijos para vcs dois